FAMÍLIA BARBULHO

Em 1892, devido às grandes dificuldades vividas na Itália, precisamente em Udne, município da Província Veneta, o jovem, Antonio Barbui, sua esposa Ângela Bocalon, (grávida de seu 5º filho) e seus quatro filhos: Valentim, Joana, Giuseppe e Maria, aproveitando as oportunidades oferecidas pelo governo italiano, que julgava ser uma forma de reduzir a população que crescia, emigraram para o Brasil que, por sua vez, também dizia oferecer vantagens aos imigrantes.

No dia da partida para o porto a despedida foi muito triste pois sabiam que dificilmente tornariam a rever a família. Como os demais imigrantes, embarcaram na 3ª classe, ou seja, no porão do navio que se dirigia ao Brasil. Em péssimas condições, a viagem durou muitos dias, fazendo com que todos sofressem por ocuparem a parte baixa do navio, sem muita higiene e sem nenhum conforto e com todas as famílias juntas.

As dificuldades da viagem e o balanço constante do navio na travessia do oceano fizeram Ângela adoecer, passar mal e abortar em plena viagem.

Mas, o sofrimento dos Barbui não pararia por aí. Chegando ao Porto de Santos, sem falar a língua do País, tiveram a ingrata surpresa de saber que todas as suas malas haviam sumido.

Após a tradicional passagem pela Hospedaria dos Imigrantes, onde o sobrenome Barbui foi registrado erroneamente como Barbulho, a família foi encaminhada para a fazenda Córrego Rico, hoje Usina Vassununga, em Santa Rita do Passa Quatro- SP, onde tiveram uma vida difícil, semelhante a de tantos outros imigrantes.

Algum tempo depois, convencidos pelo filho Valentim, que voltava de uma visita a casa de sua irmã Joana que se mudara para a Capital, Antonio Barbulho e a família se transferiram para São Paulo, alugando uma casa na Rua 21 de Abril, no Brás. Logo, cada um deles arrumou emprego: Antonio foi dirigir carroça de lixeiro da Prefeitura; Giuseppe encontrou serviço numa metalúrgica; Maria numa tecelagem e Valentim na fábrica de biscoitos Duchen, na Mooca.

A primeira foto da família Barbulho no Brasil, tendo ao fundo a lavoura de café.
Em pé, da esquerda para a direita : Joanna, José, Valentim e Maria.
Sentados : Antonio e Ângela
Arquivo : família Barbulho
Foto do Armazém da Mooca, por volta de 1928. Ao fundo vê-se Angelina, Constança, Valentim, Elidia, duas freguesas da família Salinas Bernal e, sentado à direita, Agostinho
arquivo : família Barbulho

Como a casa do Brás ficava relativamente longe do emprego de todos, logo se mudaram para a Alameda (hoje rua) Guaratinguetá na Mooca onde, já demonstrando a vocação empreendedora, montaram no quintal da casa uma cancha de bochas e um pequeno botequim onde se podia comer e beber alguma coisa e jogar cartas ou a famosa “camorra” (tradicional jogo italiano).

Em 1912, com o crescimento dos negócios, o botequim foi transformado no Armazém da Mooca, no mesmo endereço da Al. Guaratinguetá. Com os negócios prosperando rapidamente, em 1919 já buscavam um outro local que pudessem melhor atender a já imensa freguesia.

Em frente do armazém havia uma praça e na sua esquina com a Al. Pindamonhangaba, hoje Rua Orville Derby, Valentim via erguer uma grande construção tendo na sua frente um amplo armazém e, em continuação, uma boa casa.

Imediatamente foi negociar com o proprietário, Sr Luiz Teixeira que concordou alugar-lhe o imóvel (posteriormente adquirido), para onde foi transferido o Armazém e a residência que abrigou toda a família : Valentim, a esposa Constança, os filhos Agostinho, Elidia, Angelina e Arnaldo, além dos pais, Antonio e Ângela.

Começando a se tornar extremamente conhecido e graças ao grande empenho e criatividade da família Barbulho, o Armazém da Mooca prosperava, passando a contar com vários empregados, além da participação de toda a família. Logo se viram obrigados a adquirir uma carroça puxada por burro, para adotar um serviço de entregas para os fregueses que residiam mais distante. Com isso, o velho Antonio teve que “renovar a sua carteira de cocheiro”.

Nessa época, a família Barbulho teve uma importante participação na construção da Igreja de São Rafael, dando um grande apoio para o padre Savino Agazzi, seu criador. Quis o destino que a Igreja fosse coincidentemente construída no local onde Valentim perdera seu filho Albertinho, então com 5 anos de idade, morto por uma bala perdida durante uma briga em um campo de futebol situado naquele local. Provavelmente como gratidão, Padre Agazzi fez questão de inaugurar a Igreja com o batizado de Euclydes, o último filho de Valentim, o nosso entrevistado.

Foto do Armazém da Mooca, de 1932, com a rua ainda de terra
Arquivo : família Barbulho
Foto tirada em 1932 na porta do armazém com fregueses, filhos e empregados
Arquivo : família Barbulho

Além das oscilações da economia, o Armazém passou por alguns outros momentos difíceis como por ocasião da Revolução de 1924 quando foi invadido por soldados ou durante a 2ª Guerra mundial quando houve ameaça de depredação do estabelecimento por serem italianos e, ainda, quando os Barbulhos foram acusados de esconderem víveres na torre da igreja, por ocasião da escassez e conseqüente racionamento de alimentos, também durante a 2ª Guerra, acusação esta que se comprovou inverídica.

Diante da constante prosperidade dos negócios, a família Barbulho entendeu ser necessário um local ainda mais amplo, adquirindo um terreno na Rua Ararigbóia, esquina da Rua Pedro de Lucena, onde construíram um pequeno edifício no qual instalaram um amplo armazém no andar térreo, inaugurado em 1953 com o comparecimento de inúmeras autoridades, sendo a solenidade fotografada e filmada. Um luxo para a época.

Mas, como sempre na vida dessa família, um fato triste sucedeu a imensa alegria com a inauguração da nova casa: o falecimento do velho Antonio Barbulho, seis meses após aquela grande festa de inauguração.

No ano seguinte, ou seja, 1954, Valentim recebeu a medalha de “Comerciante do Ano” atribuído pela Associação Comercial de São Paulo mas, no início dos anos 60, a situação da família já estava bem diferente pois os negócios já não apresentavam a mesma lucratividade de antes.

Assim, em 1962, já com 78 anos de idade, cansado, não de trabalhar pois jamais perdeu a disposição, mas de enfrentar os problemas financeiros, Valentim optou por vender o Armazém e o prédio da Rua Ararigbóia.

Em 29-03-1973 faleceu o “guerreiro” Valentim Barbulho, um homem notável, respeitado por seu caráter, por sua capacidade, por sua dedicação à família e tantas outras qualidades.

Festa da cobertura do prédio da Rua Ararigboia – setembro de 1952
Arquivo : família Barbulho
Vista interna de uma das prateleiras de vermutes, vinhos, latarias, etc tendo como destaque o orgulhoso Valentim, ao lado de sua caixa registradora e da balança Filizola
arquivo : família Barbulho

O nosso entrevistado, Euclydes, honrou o nome da família, porém em outro ramo de atividade. Embora tenha trabalhado no Armazém até os 18 anos de idade, voltou seus estudos para a área de recursos humanos onde tornou-se um renomado profissional, inclusive integrando a direção de Associações relacionadas a categoria e sendo autor de três livros especializados : “Sucesso na Década da Incerteza”, “Excelência na Prestação de Serviços e “Tornando Sua Empresa Mais Competitiva”, possuindo, ainda, três outros livros em elaboração.

Euclydes também tem tido uma participação de destaque na Mooca, participando do Rotary Club São Paulo Alto da Mooca, onde foi presidente na gestão 2002/2003.

Mas, provavelmente, uma das maiores e melhores contribuições que este ilustre mooquense concedeu para seu bairro foi escrevendo um livro justamente sobre a história da sua família, intitulado “Eles chegaram…a saga dos Barbulho”. Na verdade não é simplesmente a história de uma família, mas um emocionante relato da saga dos imigrantes mesclado com fatos históricos de cada época. Quem lê o livro dificilmente vai deixar de pensar que o enredo da novela “Terra Nostra”, apresentada recentemente pela Rede Globo, foi nele inspirado. Quem ama a Mooca ou tem interesse pela história dos imigrantes não pode deixar de lê-lo.

* entrevista concedida em março/2004

O casal Valentim e Constança sentados no Largo de São Rafael, tendo atrás os filhos mais novos Egydio, Jandyra e Euclydes
Arquivo : família Barbulho
Euclydes Barbulho durante entrevista para o Portal da Mooca
Arquivo : Portal da Mooca

Veja abaixo mais fotos da Família Barbulho.

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