ALCIDES BARROSO GARCIA – CIDÃO

Alcides Barroso Garcia, mais conhecido como Cidão foi um dos mais populares esportistas do bairro da Mooca e da região.

Seu pai, Diego Berruezo Caño, nasceu em Cuevas na Espanha e sua mãe em Múrcia, também na Espanha. Seus avós paternos chegaram ao Brasil em 29 de setembro de 1912. Após um período como agricultores no interior de São Paulo, vieram para a Capital e se estabeleceram como carpinteiros no Bairro do Cambuci.

Já os avós maternos, também após um período na agricultura, vieram para a Capital e passaram a morar num terreno adquirido da Cia. Parque da Mooca, na Rua Padre Raposo, 1315 (onde nasceu o nosso “herói”), aqui se estabelecendo no ramo de comércio de ferro velho. “Meu pai tinha onze irmãos e minha mãe também, ou seja, dois times de futebol e dois reservas”conta Cidão, demonstrando que o esporte está realmente no seu sangue.

 

Cidão com o uniforme do Colégio Firmino de Proença

Arquivo: Alcides B Garcia

Cidão na equipe do União Democrático

Arquivo: Alcides B Garcia

Em sua infância e juventude, Cidão foi o que sempre se chamou de moleque, na boa acepção da palavra. Viveu intensamente esse maravilhoso período da vida, fazendo tudo o que tinha direito…brincadeiras, traquinagens, brigas com “inimigos��� de outras ruas, banhos nos lagos da chamada “barroca” (hoje Parque da Mooca), futebol nas dezenas de campos de várzea que então existiam, ganhando seu dinheirinho com a coleta e venda de garrafas vazias e metais e, por incrível que pareça, … estudando pois, apesar de tudo, o garoto Cidão sempre foi muito estudioso, tendo feito o curso primário no Grupo Escolar Armando Araújo e o científico no Ginásio Estadual Antônio Firmino de Proença.

Cid��o e amigos

Arquivo: Alcides B Garcia

Uma prova disso é o fato de Cidão ter sido escolhido, junto com dois meninos e três meninas, para representar o Grupo Escolar ArmandoAraújo num programa na Rádio Record, denominado Escola Risonha e Franca, comandado pelo casal Sônia e Blota Júnior. ”Depois de eliminarmos três escolas concorrentes, fomos eliminados por minha culpa. – confessa Cidão – pois, ao tentar ajudar minha companheira, assoprei a resposta de uma pergunta ocasionando a nossa eliminação. Isso aconteceu em 1950 mas para mim isso ficou marcado até os dias de hoje”.

Cidão na equipe do Tip Top campe��o do campeonato interno da Cia Antarctica

Arquivo: Alcides B Garcia

Mas já que dissemos que Cidão ganhou notoriedade por intermédio do esporte, vamos falar a respeito. Diante do seu prestígio, o jovem Cid����o tinha o seu “passe��� disputado por quase todos os clubes da região, tendo atuado em mais de duas dezenas de times :

infantil Estrela Dalva, infantil Corinthians da Tobias Barreto, infanto-mirim no Juventus, infanto-juvenil da Portuguesa Desportos, Cacau, Botafogo, Ponte Preta, Democráticos, União Vasco da Gama, Flor do Ás, Madrid, Mocidade Paulista, Águia Branca do Belém, Securit, Meu Club, Unidos Clube do Brás, ARCA – Associação Recreatica Cultural Antarctica,Tip-Top, Sambra, Paschoal Moreira, Guarani, Ypiranga de Jundiaí (3a. divisão), Paulista de Jundiaí e São Paulo FC, onde atuou em 3 jogos amistosos.

Indagado a apontar quais os melhores atletas com que jogou, Cidão, constrange-se, pois diz que são tantos que tem receio de ser injusto com alguns possíveis omitidos mas, diante de nossa insistência, arisca relacionar os seguintes : Sadô(ótimo ponta direita), Lóia, Japão, Cidico, Titonha, Bolo, Pintado, Miguel (Muchila – meio campista), Tito, Valtinho, Pantera, Panterinha, Rafinha (ponta dos juvenis do Juventus e Corinthians), Janela, Eudes (Lampião- reserva do Sastre no São Paulo), Rubinho, Julinho, Homero, Cigano, Preguinho (que nada mais é que o ponta direita Reti do Ypiranga e vários clubes), Jaú, Rosário, Tite, Marinho, Haroldo, Mauro, Joãozinho (Bagun��a – Bairro Chinês e Portuguesa), Guanito, Celso Morto, Irineu, Chancão, Rubinho, Milton, o ótimo goleiro Chulé, Marinho, Nega, o meio campista Oscar (Maneta) que só tinha um bra��o perfeito, Sérgio Cavallo, Zequinha, Sérgio, Aldinho, Ivo, Dráusio, Calabrês, Rosário que jogou no Peñarol do Uruguai, etc.

Cidão disse também não poder se esquecer de outros craques com os quais não teve o prazer de atuar no mesmo time mas os quais enfrentou : Stélio, Natal, Ivo Noal, Luiz Villa, Teleco, Chumbinho, Bráulio, Pinga, Português, Vavá, Diogenes, Orestes, Napinha, Felix (da seleção brasileira), Tarefinha, Miti, Lando, Cacá, Alécio, Joanin, Queco, Ulisses, o goleiro Benê, Dirceu, Fogueira, etc.

Com grande orgulho, Cidão se recorda de haver participado da conquista de dois títulos : o do campeonato interno da Cia. Antarctica, atuando pelo TIP-TOP, que derrotou as 20 equipes participantes, terminando invicto e o da ACEA – campeonato amador entre indústrias do estado de São Paulo, em 1959, também de forma invicta, vencendo na final a poderosa equipe da IRF Matarazzo por 4 x 1, em partida realizada, assim como todas as demais do torneio, no Estádio Conde Rodolfo Crespi. Emocionando-se Cidão relembra que, na qualidade de capitão do time da Antarctica, recebeu das m��os do grande craque do passado Arthur Friedenreich o troféu pela conquista desse campeonato.

Cidão recebendo homenagem do craque Jair da Roda Pinto

Arquivo: Alcides B Garcia

Indagado sobre outros fatos marcantes na sua carreira esportiva, Cidão prontamente se recorda que “num jogo que eu defendia o Ponte Preta ganhamos do Paulista por 3×1 onde marquei dois gols. Havia entre os torcedores um diretor do São Paulo FC, Sr. Homero Belintani, e fui por ele convidado para fazer um teste entre os profissionais do clube. Isso aconteceu em 1957 quando eu estava com 17 anos somente. O Morumbi, atual estádio Cícero Pompeu de Toledo, tinha unicamente o campo e dois túneis onde se achavam os vestiários. O treinador era o húngaro Bela Gutmann auxiliado pelo Vicente Feola. Relevante para mim, foi quando participei de um treino com a camisa cinco (antigo centro médio) onde formei o meio de campo com o camisa 10 Zizinho. Atrás de mim estavam De Sordi e Mauro Ramos, a zaga da seleção brasileira. Num dos treinos formei o meio de campo com Dino Sani. Isso s��o coisas que jamais saíram de minha cabeça, mormente porque eu tinha pouca idade. Era uma criança tentando ser um homem.”

Cidão ao lado da filha Cássia, da esposa Ana Maria e do filho Rafael

Arquivo: Alcides B. Garcia

Como se pode depreender, o nosso entrevistado tem muitas interessantes histórias para contar. E é o que ele mais gosta de fazer e o faz habitualmente para seus muitos amigos e para sua família. Numa dessas ocasiões seus filhos (seus admiradores) lhe indagaram :

– Pai, por que voc�� não escreve um livro com essas histórias, que são muito legais ?

E Cidão raciocinou : por que não ? Daí para a concretização da idéia foi só um passo resultando no livro “Mooca Berço Dourado”, onde relata as suas travessuras, relembra dos colegas do bairro, das centenas de esportistas, dos clubes da várzea, enfim um pequeno resumo de sua vida na Mooca, até porque se fosse relatar tudo com detalhes resultaria em uma grande coleção de livros.

Pegando o gosto pela escrita e como a idade já não dava mais condições de “jogar bola”, Cidão passou a dedicar-se a literatura escrevendo vários outros livros, já tendo sido publicados os seguintes : “A ��ltima Profecia”, “Par��bolas e Frases de Amor”; “Nos Jardins da Casa Branca” (lançado na última Bienal em São Paulo), “Meu Querido Djin” e “O Mago Salim”.

Atualmente Cidão n��o reside mais na Mooca, mas acometido da doença ���mooquite������� para cá sempre retorna para matar a saudade, onde é saudado sempre com festas pelos seus ainda centenas de amigos.

* Entrevista concedida em março/2007