FAMÍLIA CIPULLO

Costuma-se dizer que na Mooca as pessoas não possuem nome. Possuem sobrenome. E, na maioria dos casos, são sobrenomes tradicionais que, ao longo dos anos, se alastram por todo o Bairro. Os Cipullo são um exemplo disso.

A história dessa família, uma das mais conhecidas do Bairro, começou quando Giuseppe Cipullo, filho de Domenico e Catarina Ciardi Cipullo, um agricultor nascido em Castellalabate – província de Salerno – Itália, ainda jovem emigrou para o Brasil juntamente com o seu irmão Pascoal.

No início do século XX, Giuseppe conheceu na Mooca a também italiana Joana Burti, nascida em Castel San Lorenzo, e com ela se casou. Não muito tempo depois estabeleceu-se no ramo comercial na Rua Carneiro Leão, com uma pequena “importadora” de vinhos italianos, além de fabricar lingüiça artesanalmente, aliás muito procurada.

Por sofrer de bronquite, Giuseppe, já com dois filhos (Domingos e Pascoal), voltou sozinho para a Itália em busca de tratamento especializado. Só não podia contar com um imprevisto : chegou a Salerno justamente quando irrompia a Primeira Grande Guerra Mundial e, por ser cidadão italiano, foi convocado e teve que lutar na guerra, só retornando para a Mooca em 1919.

Durante esse relativamente longo período de 5 anos sua esposa Joana, sem o marido e sem a receita da venda dos vinhos, manteve a família empregando-se no cotonifício do “paesano” Conde Rodolfo Crespi.

Retornando ao Brasil, Giuseppe adquiriu uma casa na Rua dos Trilhos, onde nasceram mais dois filhos: Antonio e Catarina. Com o crescimento da família, os Cipullo mudaram para uma outra casa, desta feita na Rua Javari, ou seja sempre nas cercanias do campo do C.A. Juventus.

E, como não poderia deixar de ser, o Juventus teve um papel importante na vida da família Cipullo. E a família Cipullo teve um papel não menos importante na história do Juventus.

Domingos, um dos filhos do velho Giuseppe, tornou-se uma das pessoas mais conhecidas do Bairro, não somente por ter participado da fundação do Clube, mas por administrar o bar do estádio da Rua Javari por 44 anos, praticamente desde a inauguração do estádio, juntamente com seus irmãos Pascoal e Antonio e com seu grande amigo Nicola Romano.

Não era um simples bar. Era o Bar do Campo do Juventus. Local de comemoração dos torcedores nas vitórias da esquadra grená, mas também local das reuniões dos “corneteiros” criticando os jogadores ou a Diretoria nas derrotas. Não há quem tenha assistido jogo na Rua Javari que não tenha freqüentado o bar do Cipullo e saboreado o famoso sanduíche de queijo com salame, acompanhado de uma cervejinha ou de um guaraná champanhe da Antarctica…

Giuseppe Cipullo
Arquivo família Cipullo
Joana Cipullo
Arquivo: família Cipullo
Domingos Cipullo
Arquivo família Cipullo

Mas, além do Juventus, Domingos tinha uma outra paixão : o cinema, tanto é que um de seus filhos recebeu o nome de Ronaldo em homenagem a um de seus ídolos, o ator de cinema americano da época, chamado Ronald Colmann. Inspirado por essa paixão, Domingos foi mais além : em 1928, juntamente com alguns amigos, aventurou-se na realização de um filme intitulado “Orgulho da Mocidade” o qual, segundo consta, foi exibido em sessão especial no extinto Cine Moderno, localizado na Rua da Mooca, por deferência do gerente da época. Essa passagem está por ele registrada, de viva voz, no Museu da Imagem e do Som e no livro “História do Cinema Brasileiro”.

Catarina, a única filha de Giuseppe, também tornou-se sobejamente conhecida por ser uma fina costureira, com vasta clientela dentre as melhores famílias da região.

Essa interessante história da família Cipullo nos foi transmitida, de forma emocionada, pelo já citado Ronaldo, filho de Domingos, o qual, desde 1982 e até há bem pouco tempo era Diretor de Basquetebol do Juventus participando, inclusive, de sua equipe de veteranos. Durante a entrevista, Ronaldo, com um misto de emoção e saudades, relembra dos tempos do trem “Maria Fumaça” bufando pela Rua dos Trilhos em direção ao hipódromo da Mooca; dos almoços de Natal quando toda a família se reunia ao redor da mesa especialmente armada no quintal da casa e de tantas outras recordações.

Além dos já citados, inúmeros outros membros dessa família se tornaram muito conhecidos. É o caso, por exemplo do Dr. José Cipullo, mais conhecido como Nino, lamentavelmente já falecido, dentista de muitos mooquenses e do Dr. Roberto Cipullo, professor titular na área de histologia, cargo que exerceu durante dez anos na Universidade Federal de Santa Catarina e, nas horas vagas, um renomado violinista.

Mas, sem demérito dos demais, gostaríamos de falar a respeito do outro filho de Domingos, o Dr. José Paulo Cipullo, renomado médico, atualmente ocupando o importante cargo de chefe do Departamento de Medicina da Faculdade de Medicina de São José do Rio Preto -Famerp, que tem se destacado não só pela sua capacidade, mas por ter uma atuação diferenciada dos padrões atuais, nos moldes dos médicos de antigamente, adotando a filosofia que ele mesmo traduz da seguinte forma :“ o doente quer mais do que um técnico competente com a receita exata para o mal que o aflige. Ele quer também calor humano, interesse pelos seus sonhos e anseios, e disponibilidade para ouvi-lo sobre outros problemas, além da doença.”

Esses são apenas alguns dos muitos motivos que nos permitem verificar quão significativa é a família Cipullo para a Mooca, razão desta nossa homenagem. Muitas pessoas poderão estranhar que outros Cipullos também bastante conhecidos no bairro não estão sendo citados nesta matéria. É o caso do Emilio, do João, do Francisco, do Gilberto (ex-diretor de futebol da S.E.Palmeiras) e de tantos outros. É que esses pertencem a um outro ramo da mesma família e esta será uma história que ficará para uma outra vez.

Nossos agradecimentos especiais a Ronaldo Cipullo

Matéria elaborada em julho/2003

Almoço de Natal da família
Arquivo : família Cipullo
Ronaldo Cipullo, nosso entrevistado
Arquivo: Portal da Mooca
Dr José Paulo Cipullo
Veja  a árvore genealógica da família Cipullo