MINO CARTA

Mino Carta durante entrevista para o “Portal da Mooca”, tendo ao fundo sua Olivetti
Arquivo “Portal da Mooca”

Ele não nasceu e nem morou na Mooca, mas merece ser aqui homenageado por ter escrito um dos mais interessantes livros de crônicas a respeito da Mooca. Estamos falando de Mino Carta, um dos mais competentes e polêmicos jornalistas e escritor.

O livro a que nos referimos tem o título de “Histórias da Mooca”. Para escrevê-lo, Mino Carta passou longo período em nosso bairro e entrevistou dezenas de tradicionais mooquenses, deles extraindo interessantíssimas histórias, que se tornaram mais interessantes ainda graças ao incomparável estilo do escritor. As fotografias, que tornaram o livro ainda mais interessante são obras de Hélio Campos Melo, hoje Diretor de Redação da Revista ‘Isto é’.

Bem, mas vamos falar a respeito de nosso homenageado. Mino Carta nasceu na cidade de Genova, na Itália, vindo para o Brasil ainda jovem.

Ele conta que começou a escrever quando recebeu um convite de seu pai que, por sua vez, havia sido convidado pelo jornal “Il Messagero”, de Roma, para escrever matérias a respeito da preparação brasileira para a Copa do Mundo de 1950. Como seu pai detestasse futebol convidou-o a assumir esse encargo.No Brasil, o seu currículo é respeitadíssimo: aos 25 anos começou a dirigir a primeira redação: a da revista “Quatro Rodas”.

Fonte: Livro “Histórias da Mooca”
Foto: Hélio Campos Mello
Barbearia
Fonte: Livro “Histórias da Mooca”
Foto: Hélio Campo Mello

Quatro anos depois foi chamado pelo jornal “O Estado de São Paulo” para fazer a edição de esportes, que deu origem ao “Jornal da Tarde”. No começo de 1968, Mino começou a trabalhar na Editora Abril, criando a revista “Veja”.

Alguns anos depois, criou a revista “Isto É” e o jornal “A República” e, mais recentemente, em 1994, criou a revista “Carta Capital”, de enorme sucesso, onde ainda é o Diretor de Redação.

 O inquieto Mino Carta teve, ainda, três programas na televisão : um na década de 70 na extinta TV Tupi; outro em 1981 na Bandeirantes, denominado “Cartão Vermelho” e, finalmente, outro na TV Record entre 1984 e 1986 que levava o nome de “Jogo de Cartas”. Não é preciso dizer que foram programas extremamente polêmicos que, de certa forma, foram “cassados” pelo Governo ou pela própria emissora.

Mais recentemente Mino Carta escreveu um livro denominado “Castelo de Âmbar”, cujo personagem principal, Mercúcio Parla é o seu alter-ego.

Mas, sua inquietice não para por aí, pois Mino é também um artista plástico de muito boas qualidades, com centenas de telas já vendidas e participação em diversas exposições inclusive no exterior.

Um fato que nos chamou a atenção durante a entrevista foi uma máquina de escrever Olivetti colocada ao lado de sua mesa.
– Ainda é o meu instrumento de trabalho – nos disse Mino.

Fonte: Livro “Histórias da Mooca”
Foto: Hélio Campos Mello
Bem, esse é Mino Carta, nosso homenageado. Caso você não tenha lido, ainda, o livro “Histórias da Mooca” veja, a seguir, um trecho de uma das crônicas que o compõem e atente para o delicioso estilo de escrever as coisas de nossa gente.

“A tolerância, em primeiro lugar, regia a vida na Mooca e no Brás e , de noite, homens de camiste levavam cadeiras para calçadas e trocavam palavras entre uma porta e outra; E já havia ali, tomando ar fresco, ex-alunos de Pasquale Pastocchi, dono da escolinha situada na Carneiro leão. Toda manhã Pasquale se plantava na calçada e ao chegar um aluno, perguntava: “Hai portato u’ tostone?” Só entrava quem depositasse na mão do mestre a moeda devida, a mão direita, esclareça-se, enquanto a esquerda empunhava uma vareta, seguro aval de disciplina na sala de aulas. Depois, inaugurou-se a “escola do poeta”e foi um alivio. Esta chamava-se Torquato tasso, épico quinhentista de quem havia retratos até no banheiro, mas poeta, talvez mais dado à lírica, era também seu dono de sobrenome Curcio, praticante do latim e do portugues mais puro, o que levava seus contemporâneos a lhe atribuírem um trasso de loucura. Mansa, porém que jamais se viu pessoa mais doce em toda a extensão da Rua Visconde de parnaiba, em que a Torquato Tasso fiicava. E um dia enquanto Curcio se esmerava em seu elegante linguajar, um aluno riu, ao que perguntou o mestre: “Que tendes vós de rir?”, provocando, na hora, a gragalhada da turma toda, e, anos a fio, do Brás e da Mooca em peso.”