Moradores lutam pela preservação de prédio histórico

A Mooca está correndo o risco de perder mais um importante marco do patrimônio histórico da cidade de São Paulo: o espaço ocupado desde 1910 pelo Moinhos Minetti Gamba, no qual está atualmente instalado o espaço de eventos denominado Moinho Santo Antônio, em mais um crime resultante da especulação imobiliária por que vem passando o nosso Bairro.  

 

Já há algum tempo várias lideranças do Bairro vinham solicitando dos órgãos públicos o tombamento não só daquele espaço, mas também de outros prédios históricos localizados na Rua Borges de Figueiredo ao longo da linha férrea, para ali ser instalado um pólo cultural, nos moldes de espaços semelhantes implantados em antigas áreas deterioradas em diversos países.

Os arquitetos e urbanistas Fernanda Valentim e Giancarlo Bertini definem bem a linha a ser seguida:

   

 

"A Mooca precisa de renovação, precisa, precisa de adensamento populacional, sim precisa, mas a Mooca também precisa de preservação de sua História. Tombar não é deixar o espaço vazio, é conservar e requalificar para um outro uso! E é este tipo de medida que devemos procurar para o eixo da Borges Figueiredo, sem deixarmos mais uma vez destruírem a história de nosso bairro e de nossa cidade."

O local, com uma área superior a 18.000 m2., antes pertencente à Fundação Péter Murányi e por ela alugado à Moinho Eventos, foi vendido às incorporadoras Stan Desenvolvimento Imobiliário e Quality Desenvolvimento Imobiliário, que pretendem erguer no local 4 megas torres de apartamentos, com 20 andares cada, tendo, para tanto, entrado com uma ação de despejo contra os atuais inquilinos. Por conta dessa disputa, o complexo Moinho Santo Antônio vem sendo alvo de uma briga judicial.

Segundo a assessoria de imprensa das incorporadoras, o projeto para construção do Residencial Moinho está em análise no Conpresp (Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental da Cidade de São Paulo). Em contrapartida, o locatário Irineu Salvador Ruffo, um dos empresários da Moinho Eventos, também entrou na Justiça.

 

Ele quer a sua permanência no imóvel e, conseqüentemente, a renovação do contrato por mais cinco anos, defendendo a preservação do Moinho em toda a sua totalidade, pois acredita que tudo ali tem o seu valor histórico.

 

Além do dano ao patrimônio histórico, um outro aspecto vem sendo discutido, não só nesse caso, mas no que se refere ao processo de verticalização excessiva prevista para o bairro da Mooca no curto prazo, diante da insuficiência de infra-estrutura na região para suportar esse aumento populacional com sérios reflexos para a qualidade de vida, hoje sabidamente um dos pontos fortes do Bairro que temos que preservar a todo custo.

O Moinhos Minetti Gamba

Entre os vários exemplos de indústrias que tiveram à frente italianos, está o Grandes Moinhos Gamba, cujo fundador, Egidio Pinotti Gamba, é considerado um dos grandes industriais italianos que prosperaram no Brasil e tiveram destaque no cenário industrial de São Paulo. Nascido em Revere na província de Mantova, em 29 de março de 1872, veio ao Brasil com apenas 10 anos de idade e deu seu primeiro passo no comércio local que naquela época era ainda embrionário.

Com uma visão que ia além de seu tempo, entra para a indústria e passa a se dedicar de forma expressiva, tanto que a produção oriunda de suas fábricas e anexa era tida entre as melhores do país, com destaque para a moagem de trigo e a fabricação de óleos vegetais, sabão, refinaria de açúcar e sal, polimento de arroz, e até mesmo fabricação de tecidos de lã e algodão.

 

É ele o responsável pela construção, por volta de 1910, de um dos maiores moinhos de trigo, localizado no bairro da Mooca, na Rua Borges de Figueiredo, 510.

O "Óleo Gamba", puro e inodoro, estava entre as marcas mais procuradas no mercado, e era também de alta qualidade a produção obtida de diversas marcas de sabão para uso de lavanderia. Anexo ao local das fábricas, encontrava-se um escritório e serraria mecânica e uma seção de pintura para reparo e manutenção das máquinas.

 

Até 1934, as instalações industriais pertenceram à firma Grandes Moinhos Gamba. A partir desta data, passam a denominar-se Grandes Indústrias Minetti-Gamba, com a ampliação e modernização das instalações existentes. A fábrica explorava a moagem do trigo, produção de sabão e de óleo vegetal para mesa, salada e cozinha.

Dentre os seus produtos destacavam-se as marcas da farinha Maria e Savóia, bem como o sabão Negrinho e o óleo vegetal Sublime, extraído do caroço do algodão. Segundo folhetos publicitários da época de funcionamento do Moinho, os edifícios voltados para a rua Borges de Figueiredo abrigavam a maquinaria para refinação de óleo vegetal. Nessas publicidades, faz-se menção à grandiosidade da produção do Moinho e da qualidade de suas instalações.

Após o encerramento das atividades dessa empresa, o espaço até então ocupado ficou em desuso até que, em 1994, o empresário da noite Ricardo Amaral, junto com José Victor Oliva e outros sócios, restauraram a área e montaram o Moinho Santo Antonio, badalada casa noturna que funcionou até o início de 2000, quando a parte societária foi vendida para quatro empresários que montaram o Moinho Eventos, que loca os espaços para grandes festas, casamentos, formaturas, gravações de clipes e cds, comerciais e leilões de animais, local esse por onde tem passado diversas personalidades do mundo artístico e da música.

 

Em recente visita a essas instalações, promovida pelos coordenadores do movimento pró tombamento desse patrimônio histórico, muitas pessoas que só conheciam o local “por fora” ficaram impressionados com a beleza arquitetônica e paisagista do local, passando a serem também defensores ardorosos de sua preservação.

Colaborou: Elizabeth Florido